Notícia

ARTIGO - O anoitecer do homem moderno

19/03/2010


“Sobre todos os cumes
Há repouso.
Em todas as copas
Sente-se
Apenas uma aragem
Os pássaros calam na floresta.
Espera que, em breve,
Descansarás tu também.” (Johann Wolfgang Goethe)
 

Sentindo a quietude da natureza, entramos em sintonia com ela, fazendo nosso silêncio interior. Purificador, inspira calma, tranquilidade, integração com o universo, de que somos parte.

 

E, nessa paz silenciosa, calamos as vozes que julgam, que reclamam que entram em conflito dentro de nós. E nos resta encontrar com nós mesmos, no recanto em que podemos dizer: “estou comigo”. É uma experiência do mistério da vida.

 

O filósofo Kierkgaard, há muito tempo, considerando os ruídos de seu tempo, já dizia que se fosse médico receitaria como remédio o silêncio. Ele sabia que esses momentos de silêncio fortalecem o ser humano, dão-lhe sentido de vida, equilíbrio e felicidade. Se não estamos de bem com nosso íntimo, não podemos ser felizes, e isso é grave.

 

Diante da turbulência do mundo, só aprendendo a calar, vamos ouvir com atenção e atender ao outro com quem dialogamos.

 

O poeta e filósofo hindu Tagore faz uma comparação impressionante: “O pó das palavras mortas agarrou-se a ti; banha tua alma no silêncio.” Ele imagina o acúmulo de palavras que diariamente ouvimos e pronunciamos, quase nos soterrando.

 

Daí que precisamos dos intervalos de silêncio, para ir ordenando o caos, acalmando as ondas de preocupação ou de outros conflitos interiores, dando espaço ao silêncio construtivo, em que as ideias mais nossas vêm ao nosso encontro, pedindo que as coloquemos em prática.

 

Assim como a natureza pode nos conduzir a esse silêncio dadivoso e pacificador, uma boa leitura, uma música, uma oração, podem fazê-lo. Aprender com o rio que flui, ou com as nuvens distantes, com as crianças que espontaneamente se divertem...

 

Há muitos meios de sairmos do turbilhão voraz, de superofertas ruidosas, para, por alguns instantes,  apreciar a vida e valorizá-la pelo que tem de melhor.

 

Ao anoitecer, o homem moderno chega a casa, cansado; antes de adormecer precisa

recuperar-se das muitas palavras ouvidas.  Precisa desvencilhar-se, também, do pior ruído, provocado pelo amor-próprio ferido, por preocupações que se agitam, ou por sentimentos humanos demais, resultantes da guerra verbal, do egoísmo, da ganância, da ambição..., que não dormem. Busca seu eu interior, seu eu autêntico. Sentimentos e estados de espírito frequentes, tornam-se valores que acompanham nossas ações diárias, rendendo alguma dose de paz, mesmo que seja paz inquieta. 

 

*Mestre em Lingüística Aplicada, membro da Academia de Letras do Vale do Iguaçu (Alvi), membro da Academia de Cultura Precursora da Expressão (Acupre), professora de Língua e Literatura nos cursos  de Secretariado Executivo e Comunicação Social, e presidente do Conselho Editorial da Uniuv.
Esclareça suas dúvidas. Mande sugestões para esta coluna pelo e-mail prof.fahena@uniuv.edu.br

Este texto foi originalmente publicado na coluna Questões de Estilo, da edição impressa de 5 de fevereiro de 2010, do Jornal Caiçara.


por: UNIUV